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CARREIRA

Sobre o Ter e o Ser
Marco Aurélio Ferreira Vianna




Na busca incessante pela tentativa de aumentar meu nível de conhecimento (e consciência) sobre o Universo e a Humanidade, decidi ler parte importante da obra de dois reconhecidos pensadores contemporâneos, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman e o filósofo francês Gilles Lipovetsky. Dos oito livros que planejei ler, já terminei Globalização - as conseqüências humanas e Modernidade Líquida do primeiro e A Era do Vazio - ensaio sobre o individualismo contemporâneo e Tempos Hipermodernos do segundo. São idéias imperdíveis, críticas a este mundo em que vivemos.

Nesta vertente de pensamento, encontra-se também Jean Baudrillard. Arnaldo Jabor em brilhante artigo "Seremos mais felizes como coisas" (O Globo 4/10/2005) - parodia este paradoxo, afirmando: "No século XXI, por causa da aceleração do espaço - tempo, da biotecnologia e da virtualidade da vida teremos cada vez mais o "Desespero da instantaneidade".

O aqui e agora vão ser fugazes. O passado será chamado de "Decadência", teremos nostalgia de um presente que não tem repouso e angústia por um futuro que não pára de não chegar". Lipovetsky bate na tecla do efêmero, em conceito muito próximo do instantâneo. Baunt aprofunda com visão atual o Ter e Ser de Erich Fromm. Foi aí que me inspirei para fazer esta refl exão neste Fórum do Ambiente de Educação. Será que nós educadores estamos priorizando, no mínimo que se faça necessário, a formação da essência humana em nossos alunos? Será que abrimos para engenheiros, contadores e administradores a dimensão do Humano? Será que médicos entendem a complexidade humana que envolve uma dor de cabeça? O Ter e Ser são minimamente explicados? Em momento memorável de sua refl exão, Baunt afi rma que "os ricos costumavam ser exibidos como heróis para adoração universal e como padrões de emulação universal, eram outrora o self-made man, cujas vidas resumiam os efeitos benignos da ética do trabalho e do apego estrito e obstinado à razão. Mas já não é assim. O objeto da adoração é agora a própria riqueza".

Este culto invertido ao Ter está levando, principalmente, em um país como o Brasil, a uma troca de meios e fi ns extremamente perigosa. O lucro como fi m em si mesmo destrói o conjunto de energias e recursos necessários à formação de uma consistente agregação de valor, este, sim, objetivo final da vertente profissional do ser humano. Mais uma vez, é importante lembrar que lucro é subproduto de coisas bem-feitas. Mais uma vez, é importante lembrar que um profi ssional de sucesso deverá ter necessariamente a Inteligência Emocional e a Inteligência de Valores, caminhando lado a lado com a Inteligência Cognitiva. Querer só dinheiro é ganância, que traz embutido o sentido etimológico do "ganhar", normalmente fácil. Ambição é querer resultados por meio de construção, da essência.

Adorar a riqueza e o dinheiro, colocando-os no Olimpo dos deuses modernos, é incitar a vontade do instantâneo,do efêmero. É trocar o Ser pelo Ter. "Eu quero ter, para mim, o mais rápido possível só para mim" é vício entorpecedor de uma antropologia falida. Sua absorção gera corrupção, falsifi cação, crime, mensalão, mensalinho, pirataria,fraudes, laranjas, pizzas e tantas coisas mais. Os jovens precisam saber mais sobre a Essência Humana. Em meu ponto de vista, todos os cursos superiores deveriam ter uma cadeira chamada Pensamento e Sabedoria Humana, obrigatória durante quatro trimestres. Talvez aí, a Tecnocracia estaria ao lado da Justiça, da Ética e do Amor, e construindo uma grande nação, principalmente, mais justa.


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