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CARREIRA

Atribuições que nos iludem
Roberto Shinyashiki



Por Roberto Shinyashiki


As pessoas que nos amam vivem nos atribuindo talentos que nem sempre temos.
Todos nós temos a tendência de ver o que queremos ver. Podemos constatar isso claramente quando discutimos um filme com um amigo. Cada um presta mais atenção em determinada cena e interpreta o filme a sua maneira.

Essa situação também acontece quando os pais analisam o desempenho de um filho. É claro que a questão é mais delicada. Se o pai é apaixonado por futebol, muitas vezes vai enxergar no filho um talento que não existe:

– O meu filho é o novo Ronaldinho!

Enquanto isso, um observador neutro vê uma criança correndo atrás da bola sem grande vocação.
Se a mãe é apaixonada por música, ela corre o risco de ver uma nova cantora na filha, que não têm prazer nenhum em cantar.

As pessoas que nos amam vivem nos atribuindo talentos que nem sempre temos. Essas atribuições são perigosas, pois podemos levar mais a sério o desejo de alguém importante para nós do que nosso próprio desejo.
Além disso, muitas vezes essas atribuições nascem de situações que foram percebidas de maneira equivocada. É o caso do pai que percebe que o filho não está se comprometendo com nada e decide motivá-lo com uma atribuição:

– Filho, você tem tudo para ser um grande empresário!

Menos o talento, é claro, mas isso ele não vai dizer...

Meu pai foi um farmacêutico prático bem-sucedido, mas, no fundo, sua vontade era ser médico. Esse foi o sonho frustrado de sua vida. Mas ele não deixou esse desejo de lado e encontrou uma maneira de realizá-lo ao me atribuir talento para a medicina.

Desde que meu processo de alfabetização se iniciou, aos 4 anos de idade, eu me lembro de que ele dizia, ao me ver começando a escrever:

– Olha como o Beto pega a caneta com jeito de médico!

De verdade, acho que a única coisa que eu tinha de médico era a letra difícil de ler de um garoto que está aprendendo a escrever. Mas, como o sonho dele era me ver médico, atribuir-me as qualidades desse profissional foi uma estratégia que ele usou muito.

Esse tipo de atitude é bastante comum. O que você pode fazer é ser compreensivo. Sempre que ouvir as opiniões dos outros sobre você, lembre-se de que são apenas a manifestação das idéias deles. Não pense que essas opiniões estão corretas nem que, se segui-las, tudo vai dar certo em sua vida. Mesmo que seu pai seja seu herói, você não precisa seguir todos os conselhos dele para ser um herói de verdade.

Ainda em tempo: hoje sou médico e tenho certeza de que segui essa carreira para agradar a meu pai. Mas minha sorte é que, depois de todas essas análises que fiz, se fosse escolher uma carreira hoje, certamente seria Medicina. Mas não para agradar a meu pai...

Roberto Shinyashiki é psiquiatra, palestrante e autor de 13 títulos, entre eles: Os Segredos dos Campeões, Tudo ou Nada, Heróis de Verdade, Amar Pode Dar Certo, O Sucesso é Ser Feliz e A Carícia Essencial (www.clubedoscampeoes.com.br)


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