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TECNOLOGIA

Tudo sobre a TV digital no Brasil
Ethevaldo Siqueira


Ethevaldo Siqueira é escritor, consultor e jornalista especializado em novas tecnologias, trabalhando atualmente como colunista do jornal O Estado de S. Paulo, para o qual escreve desde 1967; é colaborador especial da Revista Veja e comentarista da Rádio CBN, desde 2006, com uma coluna diária chamada Mundo Digital. Cobre esses setores há 40 anos, entrevistando cientistas, participando de congressos e visitando exposições, laboratórios e universidades no Brasil e no mundo.

Numa pesquisa conduzida pela TeleQuest em São Paulo, em novembro de 2007, uma das conclusões surpreendentes era a de que 82% dos entrevistados das classes A e B não tinham a menor noção do que é TV digital. Nas classes C e D, esse percentual chegava a 97%. Assim, mesmo que o leitor tenha certeza de suas noções e conceitos sobre TV digital, é bom que leia este artigo, para conferir seus conhecimentos sobre a nova tecnologia.

Pergunte-se, então: O que é TV digital?  Antes de responder a essa questão, vale a pena relembrar que, a rigor, a digitalização da TV já chegou aos estúdios e aos sistemas fechados, com as imagens transmitidas na TV a cabo, via satélite ou via microondas terrestres. Mas não é dessa TV digital, a dos estúdios, a da TV a cabo ou por assinatura em geral, que vamos falar e, sim, da TV digital aberta, transmitida pela atmosfera para livre recepção de todos os que dispõem de receptor. Na expressão mais rigorosa dos técnicos, ela é chamada de radiodifusão digital de sons e imagens. E para esclarecer mais: radiodifusão é o mesmo que broadcasting, quer dizer, difusão de programas para recepção livre e gratuita por todos os habitantes de uma região.

Popularmente, a TV digital caracteriza-se por uma imagem de qualidade superior e por um som tão puro quanto o dos melhores CDs. Ultrapassando largamente a simples idéia de inovação no som e na imagem, a TV digital talvez seja, no longo prazo, o começo de uma nova era na comunicação de massa. Segundo prevêem os visionários da eletrônica de entretenimento, cada televisor digital será para o telespectador brasileiro, em 10 ou 15 anos, uma via de acesso à auto-estrada da informação, abrindo caminho à interatividade, mudando, passo a passo, os hábitos do cidadão, até aqui acostumado à hipnose da televisão unidirecional.

Muito além da mera evolução da TV analógica ou de um televisor com ótima imagem e som extraordinário, a TV digital vai trazer a possibilidade de interação com o cidadão ao permitir a criação de uma plataforma multimídia doméstica. Com isso, o televisor digital passará a ser um verdadeiro terminal, que permitirá ao telespectador interagir com o mundo, comprar e ter acesso cada dia mais amplo à informação.

No médio ou longo prazo, tudo poderá estar a um clique de distância de cada usuário, via TV digital, esteja ele onde estiver – em casa, no carro, no metrô, no celular. Para repetir um exemplo mais citado, o do comércio eletrônico, imagine que você esteja assistindo a uma determinada novela e que o galã esteja tomando um vinho que você adoraria experimentar. Não perca tempo, aponte o controle remoto e dê um clique na garrafa que está na tela, sobre a mesa. O programa de TV é congelado, abre-se uma janela no vídeo e você poderá saber a marca e o preço do vinho, onde comprá-lo ou já encomendá-lo para entrega em sua casa. Para fazer o pedido, basta apertar um botão do controle remoto e o decodificador numérico se encarregará do resto. Em pouco tempo o seu pedido será entregue em sua residência.

O mundo ainda não vive esse tipo de interatividade, a não ser em casos isolados ou experimentais. Os otimistas apostam nesse futuro convergente da TV digital, pois ela poderá utilizar simultaneamente as redes de TV, telefônica e de computadores, que inclui a internet. Até há poucos anos, essas redes eram praticamente independentes.  Nos últimos anos, elas se fundiram no processo de convergência. Em futuro muito próximo, todas as redes deverão estar unificadas em uma só rede multimídia, com a integração definitiva de televisor, telefone e computador.
Nesse sentido, a TV digital representará – num horizonte de 10 a 15 anos – o fim da televisão como nós a conhecemos, em especial, com a multiplicação das tecnologias empregadas.

Qual é a diferença entre TV analógica e digital?

O sinal analógico caracteriza-se por uma onda contínua que contém modulação (um conjunto de informações) análoga ao sinal de origem (áudio ou vídeo). O Brasil vive o momento da chegada da TV digital. Por limitação da banda de freqüência, a resolução do sinal de vídeo e a qualidade de áudio sempre estiveram confinadas dentro deste espectro, impedindo qualquer melhoria dos serviços oferecidos. Não é por outra razão que, notadamente, neste modelo quase nada evoluiu nas últimas três décadas.

O marco mais importante da história da televisão analógica foi a chegada da televisão em cores. No caso brasileiro, esse avanço ocorreu em fevereiro de 1972. De lá para cá, mesmo com todos os avanços incorporados, a TV analógica ainda é marcada por uma recepção pobre na qualidade de imagem e de som, quando comparada à de outras mídias, e rotineiramente com fantasmas, ruídos e interferências.

Com a digitalização do sinal transmitido, o som e a imagem são processados eletronicamente por chips e microprocessadores de última geração que traduzem a imagem animada em códigos numéricos, em milhões de combinações de dígitos binários de informação. Por outras palavras, a tecnologia de transmissão digital transforma tanto os sons quanto as imagens em códigos digitais semelhantes aos encontrados em computadores, para transmiti-los em seguida aos usuários finais.

A rigor, esses dígitos binários são combinações feitas de zeros e uns, denominados bits. Mas, a exemplo da TV analógica, estas informações também devem estar confinadas dentro deste mesmo espaço de freqüência. Para atender a esta exigência, um canal de televisão digital não pode transportar dados com velocidade maior que 20 Mbps (milhões de bits por segundo).

Uma das vantagens da TV digital é possibilitar a transmissão de muito mais informação no mesmo canal de freqüência. E para tornar mais confortável e ampla a visão de suas imagens, as imagens da TV digital têm aspecto visual não mais de 4 por 3, mas de 16 por 9.  Na linguagem dos técnicos, esse formato (4 por 3 ou 16 por 9) tem o nome de relação de aspecto (em inglês, aspect ratio). A imagem de alta definição é formada por  2 milhões de pontos luminosos que contêm as três cores básicas: vermelho, verde e azul, muitas vezes referidas pela sigla RGB, das três cores em inglês: de red, green e blue). Cada ponto luminoso que forma a imagem chama-se pixel (forma reduzida de picture element). A imagem de alta definição tem, portanto, 2 milhões de elementos de imagens (pixels).

Cada pixel, contudo, carrega informação sobre diferentes níveis de brilho, cor e saturação (tom mais forte ou mais claro). Todas as informações sobre essas características da imagem são dadas pelos códigos digitais transmitidos. O total dessas informações binárias pode chegar a 1 gigabit/segundo (o mesmo que 1 bilhão de bits por segundo ou ainda mil megabits/segundo).

Como essa quantidade de informação não caberia, normalmente, no canal de freqüência à velocidade de 20 megabits/segundo, os pesquisadores tiveram de desenvolver métodos de compressão digital do sinal que pudessem reduzir, sem perda de qualidade, este imenso fluxo de dados em pelo menos 50 vezes.

Essa redução do número de bits a 1/50 do total de bits da imagem original só se tornou possível, então, com o tratamento do imenso volume de informação contido na imagem de alta definição por intermédio de um artifício, denominado compressão dos fluxos de dados, conhecido pela sigla MPEG (do Motion Picture Experts Group).

A compressão digital elimina as redundâncias da imagem. Como ilustração, imagine uma imagem de um avião contra um céu azul uniforme. Não faz sentido transmitir um código binário de 10 bits para cada um dos milhares de pixels azuis. Basta transmitir um código que significa "seguem-se milhares de pontos azuis". Devemos levar em conta que o avião continua movendo-se e, assim, basta apenas informar a direção do movimento, sem ter de transmitir toda a imagem do avião. Isto, adicionado ainda a outras técnicas, demanda um número significativamente menor de bits na transmissão da imagem.

Por meio da compressão digital, as emissoras enviam apenas os dados necessários, ou seja, apenas as diferenças entre cada quadro da imagem em lugar de um quadro inteiro, removendo as informações repetitivas, o que possibilita que muitos outros serviços digitais sejam associados e transmitidos dentro de um único canal de televisão.
Na recepção, estes dados são reconvertidos para imagens animadas, sons, textos, telejogos, serviços de informação, guia de programação, entre outros, tornando possível um sonho antigo dos pioneiros da televisão.
Sempre que falamos de TV digital, estamos nos referindo à televisão aberta transmitida pela atmosfera para livre recepção de todos que disponham de equipamento adequado. Esse tipo de transmissão aberta é chamada de radiodifusão ou broadcasting.

O que já é digital na TV brasileira?

Em sentido amplo, o processo de digitalização da televisão brasileira já está avançado e vem sendo implantado há muitos anos. Sim, nas grandes redes de televisão, quase tudo já é digital: câmeras para captação de imagens, processo de produção, acabamento, ilhas de edição, gravação dos programas, equipamentos de estúdios. Tudo isso já é digital, e há alguns anos. O único segmento que ainda não era digital era o da transmissão atmosférica, por meio do qual as emissoras enviam conteúdos para a casa do telespectador.

Frisemos ainda uma vez: tudo que discutimos aqui se refere a uma forma de radiodifusão que, a rigor, deveria chamar-se TV digital aberta, atmosférica e gratuita. Diante disso, muitos leitores devem estar perguntando: “E TV aberta por satélite terá o mesmo padrão da TV digital terrestre? A resposta é não, pois a TV transmitida via satélite para recepção direta por meio de antenas parabólicas nasceu como um serviço de distribuição de sinais para as emissoras ou repetidores integrantes de cada rede de TV. Seu objetivo inicial não era distribuir o sinal de TV para o usuário final. O que ocorreu foi a disseminação de parabólicas por todo o território nacional, levando boa imagem dos canais abertos a mais de 15 milhões de domicílios, do Oiapoque ao Chuí.

Essa popularização das parabólicas deu-se em função de dois fatores. De um lado, em decorrência da difusão de programas com sinal aberto por todo o País, pela Embratel, dona dos satélites Brasilsat. De outro, porque diversas indústrias desenvolveram sistemas de recepção do sinal de satélite (antena parabólica e conversor) fornecidos aos telespectadores de regiões remotas, onde o sinal da TV aberta não chegava. A escala de produção fez baixar significativamente o preço desses sistemas, tornando-os acessíveis até às classes de menor renda.

Como ficam essas parabólicas diante da TV digital? Eis aí um problema a ser resolvido. Diversas redes de TV já distribuem seus sinais sob a forma digital, usando a tecnologia européia DVB ou outros padrões, tanto para a TV aberta quanto para a TV por assinatura do tipo DTH (direct-to-home). Segundo a previsão de especialistas, ao se aproximar o fim da transmissão de TV analógica, a grande probabilidade é que as emissoras adotem o mesmo padrão da TV digital aberta, que será recebido via conversores do tipo set-top boxes.

Quando a TV digital cobrirá todo o Brasil?

O Ministério das Comunicações estima que a cobertura do País seja conseguida até 2014. A primeira região a contar com transmissões de TV digital no Brasil foi a Grande São Paulo. Lá, as grandes redes de televisão iniciaram suas transmissões comerciais de TV digital no dia 2 de dezembro de 2007. Por falta de coordenação do projeto na área industrial, essa primeira região enfrentou muita dificuldade na fase inicial das transmissões: 1) escassez e preços elevados de sintonizadores (conversores ou set-top boxes); 2) falta de informação sobre o software operacional da TV brasileira (denominado Ginga), responsável pelos recursos de interatividade da TV digital; 3) falta de informação sobre a própria TV digital.

Progressivamente, a TV digital deverá cobrir todo o País, a partir das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e outras, para, talvez, cobrir todo o território nacional antes de 2015.

Televisor analógico pode captar a TV digital?

Sim, desde que ele disponha de um sintonizador (a caixa-preta conhecida também pelo apelido de set-top box). Como as técnicas de transmissão analógica são incompatíveis com as técnicas digitais, há necessidade desse dispositivo intermediário, o set-top box,  que, na realidade, funciona como receptor de sinais digitais e conversor desses sinais em analógicos.

É claro que um televisor analógico, comum, mesmo com receptor para TV digital, nunca terá uma imagem de alta definição. Mas poderá melhorar sensivelmente sua recepção e a qualidade da imagem analógica.

Sem conversor, vou ter de jogar fora minha TV?

Não. Até 2016, as emissoras serão obrigadas a transmitir seus programas tanto em sinais analógicos quanto em digitais. Assim, você continuará recebendo normalmente os programas da TV aberta analógica. Até aquele ano, portanto, você não será obrigado a adquirir outro televisor nem  o sintonizador digital.  Mas é bom lembrar que, sem conversores, os velhos televisores continuarão a receber a mesma programação, analógica, como se nada tivesse ocorrido. Só depois de 2016, quando as transmissões analógicas forem interrompidas, é que todos os televisores terão de ter receptores digitais ou set-top boxes.

E a TV por assinatura terá o mesmo padrão digital?

Não. Os diversos tipos de TV por assinatura – TV a cabo, via satélite ou DTH (direct-to-home), via microondas (MMDS, sigla de Microwave Multipoint Distribution System) – não serão obrigados a adotar a mesma tecnologia digital da TV aberta. Algumas empresas operadoras, contudo, poderão mudar seu padrão digital para o padrão nipo-brasileiro adotado pelo País. Outra opção possível será a oferta de conteúdos digitais em alta definição com padrão diferente da TV aberta.

Teremos outros aparelhos para assistir à TV digital?

Sim. Diversos outros: nos telefones celulares, nos laptops ou desktops dotados de sintonizadores, nos PDAs e nos receptores instalados em meios de transporte, como carro, ônibus, metrô, trem ou qualquer outro. A essa possibilidade múltipla de recepção do sinal de TV digital chama-se portabilidade. Mobilidade é o nome que se dá à recepção de TV digital em veículos em movimento.

Quais são os diferentes graus de definição?

Em TV digital, existem diversos graus de definição ou de nitidez da imagem. Façamos uma analogia com as fotos coloridas ou em preto-e-branco impressas em jornais. Observe-as com uma lupa e verá que quanto maior for o número de linhas e quanto maior for o número de pontos por linha, maior será a resolução da foto impressa. Algo semelhante se passa com a imagem de TV.

Na realidade, existe uma infinidade de graus de definição, os quais crescem com o progresso tecnológico das câmeras e captadores. Na televisão digital dos EUA, por exemplo, são especificados 18 graus de definição de imagem. No Brasil, estes níveis ainda não foram estabelecidos ou especificados. Mas, de maneira geral, podemos classificá-los em quatro grandes grupos:

a) baixa definição (low definition ou LDTV), com imagens de 288 linhas e 352 pixels por linha, para recepção em celulares, PDAs ou laptops;

b)  definição-padrão (standard definition ou SDTV), com 480 linhas de 720 pixels por linha, para televisores de definição normal como os atuais;

c) definição melhorada (enhanced definition ou EDTV), com 480 linhas entrelaçadas de 853 pixels, como a dos melhores DVDs;

d) alta definição (high definition ou HDTV), de 1.080 linhas de 1.920 pixels por linha e, portanto, a melhor imagem, com o maior número de pontos ou pixels.

TV Digital é o mesmo que TV de alta definição?

Não. Toda TV de alta definição é digital. Mas nem toda TV digital é de alta definição. A diferença está, portanto, no grau de definição. Quanto mais pixels ou pontos coloridos tiver a imagem, maior será sua definição. O resultado pode ser obtido:

1. por varredura progressiva (progressive scanning), em televisores de 750 linhas, em que a imagem é formada à velocidade de 60 quadros de 720 linhas ativas por segundo;2.  por entrelaçamento (interlacing) de 30 quadros de 1.125 linhas (ou 1.080 linhas ativas) por segundo.

Vale a pena comprar já um televisor maior?

Depende de vários fatores. Se a TV digital já chegou à sua cidade, a resposta é positiva, mas é altamente desejável que seu novo televisor seja dotado de sintonizador digital integrado ou embutido.
Se comprar apenas o televisor plano de maiores dimensões, cuide para que o aparelho esteja tecnicamente preparado ou “pronto para a alta definição” (HD ready).

A digitalização das emissoras será obrigatória?

Sim, mas não imediatamente. Mas, a partir do momento em que se digitalizarem, as emissoras deverão transmitir o mesmo programa com sinal tanto digital quanto analógico.
A partir de junho de 2013, ou seja, sete anos a contar do decreto de junho de 2006, todas as emissoras de TV deverão estar transmitindo sinais digitais. Em dez anos, cessarão todas as transmissões analógicas.

E todas as novas emissoras serão digitais?

Esse ponto ainda não está definido. Em breve, o Ministério das Comunicações e o grupo de trabalho formado para fixar as regras vão sugerir um conjunto de medidas complementares para a implantação da TV digital.

Quais as principais vantagens da TV digital?

Com a televisão digital, os canais de televisão se abrirão para uma importante variedade de novos produtos até então desconhecidos e muito deles ainda hoje inconcebíveis – e tudo isso poderá ser acessado de qualquer lugar; seja em casa, no carro, no escritório, no metrô, na rua e assim por diante. Mas isso ainda demora alguns anos, para se tornar hábito da maioria.

Os especialistas apostam no futuro da interatividade, da portabilidade e da mobilidade, como principais diferenciais da TV digital.

Interatividade, o grande salto. Mas quando?

Embora ainda demore alguns anos para que isso ocorra, o televisor digital tende a tornar-se um verdadeiro terminal de interação com o mundo, permitindo, a longo prazo, que indivíduos se conectem interliguem à vontade, até mesmo com outros países.

O televisor deixa de agora em diante de ser um veículo que trafega em mão única na estrada da informação. O telespectador deixa de ser passivo diante do televisor, apenas recebendo informação, para tornar-se interativo, aspecto considerado da maior relevância para a inclusão digital.

Vencendo as barreiras culturais e econômicas, a interatividade plena deverá proporcionar não só entretenimento, mas também condições propícias à educação, cultura e cidadania. A interatividade será assegurada, basicamente, pelo sintonizador de TV digital (set-top box) e pelo controle remoto. Além disso, para que o telespectador se comunique com sua emissora ou outros destinos, é preciso que exista um caminho de volta ou canal de retorno. Um deles é a linha telefônica fixa. Outro é o celular. Um terceiro é algum tipo de rede sem fio, como WiMax.

Vejamos aqui alguns exemplos de interatividade local, que deverão vir antes de outras formas desses serviços bidirecionais:

a) Guia eletrônico de programação, que contém todas as informações sobre a grade de programação dos diversos canais, com a sinopse dos programas.

b) Escolha a câmara e o melhor ângulo – Nas transmissões de futebol, o telespectador poderá selecionar a câmara com o melhor ângulo: as laterais, atrás dos goleiros, ou mesmo uma visão geral do campo. A qualquer momento pode inserir na tela uma tabela com estatísticas sobre o jogo ou a classificação do campeonato.

Além da interatividade local, disponível e pronta para ser acessada, a TV digital oferecerá, também, a interatividade com canal de retorno, que utilizará, através do qual o telespectador enviará suas informações, solicitações ou respostas. Canal de retorno é o caminho de volta, que interliga o telespectador à emissora. Pode ser a linha telefônica fixa, o celular ou outras redes sem fio.

Embora o Brasil ainda não tenha padronizado nem definido em detalhes esse canal de retorno, ele será feito com a conexão do sintonizador digital a uma linha telefônica fixa ou celular, ou outro tipo de rede de telecomunicações (Wi-Fi, WiMax, WiMesh ou outra). O envio de mensagens curtas (torpedos) através do celular também pode ser uma forma de canal de retorno.

Eis aqui dois exemplos de interatividade com canal de retorno:

. Comércio eletrônico, por intermédio do qual o telespectador pode conhecer melhor os produtos e realizar sua compra.
. Respostas em programas educativos ou de entretenimento. Nesse caso, o telespectador visualiza o questionário e dá sua resposta através do canal de retorno, utilizando o controle remoto do sintonizador do televisor digital ou outro dispositivo semelhante.

Não se esqueça: uma boa antena VHF e UHF
Para a melhor recepção da TV digital é essencial uma boa antena externa – que não custa nenhuma fortuna e é praticamente igual à da televisão analógica. Apenas com um detalhe: ela deve ser destinada tanto à recepção em VHF para os canais analógicos quanto em UHF, para os digitais.

É oportuno lembrar aqui que a TV analógica opera tanto nas faixas de VHF (canais 2 a 13) quanto de UHF (canais 14 e acima). A TV digital vai operar apenas na faixa de UHF, usando canais diferentes dos canais da TV analógica.
A imagem da TV digital não tem meio termo: ou “pega” ou “não pega”. Ou chega perfeita, sem fantasmas nem chuviscos, ou não chega e se transforma numa tela preta.

Imagem sempre estável

Para assegurar imagem e som cristalinos, mesmo em ambientes extremamente hostis, as emissoras inserem redundâncias nas transmissões, de forma a permitir que perdas de informações possam ser recuperadas. Por meio desta técnica, aliada a outras para conferir robustez nas transmissões dos sinais, os receptores podem facilmente sintonizar um canal mesmo em ambientes com muita interferência, campo eletromagnético fraco, muito ruído elétrico e repleto de reflexões (fantasmas) e ainda assim decodificar este sinal para imagem com qualidade superior à de um DVD e som que facilmente supera o de um CD ao oferecer múltiplos canais de áudio.
Podemos gravar qualquer programa, mesmo enquanto vemos outro. O som é estéreo e surround em seis canais ou 5.1.

As vantagens futuras da digitalização

Dentro de 5 a 10 anos, a digitalização deverá proporcionar todos os recursos que essa tecnologia nos pode oferecer, como maior mobilidade, portabilidade, multiprogramação e flexibilidade. Vale a pena traduzir esses recursos em miúdos.

1. Multiprogramação, também conhecida pelo termo em inglês multicasting, é a possibilidade de transmissão de vários programas com diferentes níveis de definição num único canal de 6 MHz utilizado pela TV digital.

2. Portabilidade é a recepção em diversos tipos de equipamentos, como PDAs, laptops e celulares.

3. Mobilidade refere-se à recepção de programas em celulares ou em veículos em movimento, como trens, ônibus ou carros.

4. Flexibilidade é a possibilidade de ter o máximo de aplicações e serviços, tanto para as emissoras de TV quanto para as operadoras de celulares e empresas de multimídia.

Quais são as características da TV digital brasileira?

Vamos conceituar corretamente sistema e padrão. O Brasil terá um sistema e não um padrão de TV digital. Sistema é o conjunto de padrões ou recursos (ferramentas de software, componentes e padrões de compatibilidade internacional). Por isso, o Ministério das Comunicações estabeleceu desde 2003 o que é chamado de Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD).

Por que Brasil adotou o sistema japonês?

Deixando de lado o interesse político e a ação dos lobbies, a decisão brasileira apoiou-se na premissa de que, para tornar o sistema economicamente viável, o sistema escolhido deveria acompanhar as grandes tendências mundiais e manter-se alinhado a elas ao considerar a relevância do mercado internacional. Assim, a meta sempre foi compor o sistema a partir de padrões existentes. O próprio modelo japonês está fortemente baseado no modelo europeu de TV digital, com o objetivo de incorporar-lhe significativas melhorias.

O sistema híbrido, nipo-brasileiro, caracteriza-se por ter maior estabilidade do sinal de TV e proporcionar mais as vantagens da interatividade e da mobilidade. Um dos recursos exclusivos do sistema é a possibilidade de transmissão de imagens de TV digital diretamente para dispositivos móveis (como celulares, palmtops, PDAs ou laptops) sem passar pelas operadoras de celular (como Vivo, Claro, Tim ou Oi).

Um sistema de TV digital pode ser subdividido em quatro grandes macroblocos ou áreas principais:


1. Digitalização e compressão dos sinais de áudio, vídeo e dados, para reduzir a quantidade de dados a serem transmitidos. Como o Brasil optou mais recentemente pela TV Digital, pôde beneficiar-se de progressos alcançados em pesquisa e desenvolvimento. Assim, enquanto o Japão e demais países do mundo que contam com TV Digital empregam a técnica de compressão denominada MPEG-2, o Brasil adotou o padrão AVC/H.264 (equivalente ao MPEG-4) que oferece eficiência duas vezes maior de compressão quando comparado ao seu antecessor.

2. Multiplexação, que viabiliza a inserção de vários serviços em um único fluxo de bits. O País adotou o mesmo padrão empregado no Japão e demais países do mundo.

3. Middleware, arquitetura de software que viabiliza a TV interativa. Cada um dos sistemas mundialmente disponíveis adotou a técnica mais adequada à realidade sócio-cultural das regiões em que são implantados. O Brasil não fugiu a esta regra e desenvolveu o seu próprio software, o Ginga. Por analogia, poderíamos comparar o middleware ao sistema operacional de um computador.

4. Codificação e Modulação, que conferem robustez ao sinal transmitido. Após muitos estudos, o Brasil decidiu adotar a tecnologia de modulação OFDM (do inglês, Orthogonal Frequency-Division Multiplexing) que é a mesma do sistema japonês, já que os testes comprovaram ser a técnica que confere muito mais robustez e estabilidade ao sinal de TV, permitindo recepção com pequenas antenas internas mesmo em cidades com muitos edifícios, como São Paulo, ou montanhas, como o Rio de Janeiro. Não cabe nos propósitos deste artigo explicar a complexidade da tecnologia OFDM, mas apenas registrar suas principais vantagens, ao usuário ou leitor.

Que vantagens traz a TV digital para a publicidade?

Muitas. A TV digital permitirá, por exemplo, o uso de mensagens publicitárias embutidas em cada objeto apresentado numa novela ou programa de entrevista. Poderemos apontar o cursor do controle remoto sobre o produto, abrir uma janela (o programa não é interrompido, mas congelado e gravado a partir daí) e obter informações comerciais (características, vantagens, preço, onde comprar) ou clicar diretamente na opção compre dentro da janela, num exemplo de comércio eletrônico. Será o T-commerce (ou comércio eletrônico via TV).


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